Estudos nacionais e internacionais indicam impacto direto na empregabilidade e nos rendimentos, além de descompasso entre discurso institucional e práticas empresariais

A relação entre maternidade e a permanência no mercado de trabalho tem sido objeto de estudos consistentes, com evidências quantitativas que expõem fragilidades na gestão corporativa desse período. No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a taxa de participação de mulheres com filhos de até três anos é de cerca de 54,6%, enquanto entre aquelas sem filhos na mesma faixa etária o índice ultrapassa 67%.

Essa diferença evidencia que a maternidade ainda impõe um custo concreto à trajetória profissional feminina, especialmente nos primeiros anos após o nascimento dos filhos. De uma forma geral, o cenário se reflete na dinâmica interna das empresas.

“Embora campanhas institucionais valorizem a maternidade, a ausência de políticas estruturadas de retorno contribui para a evasão ou estagnação de carreira. Estudos revisados em publicação científica de 2024 apontam que mulheres que retornam da licença enfrentam aumento de carga de trabalho, dificuldade de acesso a jornadas flexíveis e maior conflito entre demandas familiares e profissionais, o que eleva a probabilidade de saída ou migração para posições de menor carga horária”, salienta Bruna Antonucci, psicóloga e consultora especializada em desenvolvimento de lideranças.

No recorte de permanência no emprego, o cenário é ainda mais sensível. Um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV), com base em dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), aponta que aproximadamente 50% das mulheres brasileiras estão fora do mercado de trabalho até dois anos após o término da licença-maternidade. “O dado reforça que o retorno ao trabalho representa um ponto crítico, no qual a ausência de políticas estruturadas de reintegração, aliada à falta de previsibilidade organizacional, contribui para desligamentos ou pedidos de demissão”, completa Bruna.

No plano internacional, a chamada “penalidade da maternidade” também é mensurada de forma objetiva. Estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indica que mulheres com filhos pequenos apresentam taxas de emprego significativamente inferiores às de mulheres sem filhos, enquanto a paternidade não produz o mesmo efeito negativo na carreira masculina. Em termos salariais, pesquisas apontam que mães podem receber, em média, até 20% menos do que mulheres sem filhos em funções equivalentes, refletindo um viés persistente na avaliação de desempenho e potencial.

Existe uma contradição difícil de ignorar: muitas empresas celebram mães em maio, mas não criam segurança para que mulheres possam maternar sem medo de perder espaço, renda ou emprego. A maternidade continua sendo penalizada na prática, seja pelo desligamento após a licença, pela estagnação na carreira ou pela desconfiança sobre disponibilidade e desempenho. Os indicadores e estatísticas deixam claro que o problema não é individual, é estrutural. No discurso, mães são homenageadas, na rotina corporativa, muitas ainda são tratadas como menos disponíveis, menos produtivas ou menos estratégicas. Se os números dizem alguma coisa, é isto: em 2026 ainda não valorizamos mães como trabalhadoras”, afirma Bruna Antonucci.

Crédito: Jessica Freitas


atualizado em 07/05/2026 - 15:56

comentários